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A importância da família na adolescência

A família constitui se como um eixo fundamental desde da infância, para o melhor crescimento e desenvolvimento de uma criança. Na adolescência a sua importância exponenciasse, porque é neste momento do desenvolvimento que têm lugar importantes transformações físicas e psíquicas que antecedem a entrada na vida adulta.

Em outros tempos, a família alargada fazia parte da realidade da maioria das crianças e dos jovens, hoje fica apenas na memória de muitos dos que recordam as longas férias de verão passadas com os avós e com outros familiares ou cuidadores. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já dizia o poeta, mas afinal qual a importância da família para um adolescente? Esta é uma questão da máxima importância, com a qual me deparo várias vezes e em diversos contextos na minha prática clínica.

A principal função da família de um adolescente é a de poder funcionar como um “espaço psíquico alargado”, ou seja, como um espaço que permite conter as tensões que se encontram diretamente ligadas às transformações em curso durante este período do desenvolvimento. Quando existe um adolescente numa família isso significa que toda a família passa a estar envolvida no processo de tornar-se adolescente, o que significa que a adolescência também é um processo familiar.

Nos tempos que correm as famílias têm sofrido alterações profundas. As famílias ditas tradicionais deram progressivamente lugar a pais isolados ou a famílias que se reorganizam de formas muito diversificadas. Apesar das diferenças existem alguns aspetos que são transversais a todas as famílias: Os conflitos relacionais entre pais e filhos são uma constante no decurso da adolescência. Nestes, o adolescente tende a opor se aos seus pais como forma de consolidar a sua autonomia, podendo os pais apresentar algumas dificuldades em lidar com as tensões inerentes ao desenvolvimento. Acrescem ainda os comportamentos desviantes dos adolescentes, que em muitas das situações resultam de atitudes menos saudáveis dos pais, ao longo do crescimento dos filhos.

Durante a adolescência é essencial que decorra uma reorganização da relação com os pais. Este é o momento do crescimento em que decorre uma reorganização intrapsíquica das imagens parentais, pelo que é normal que o adolescente e a família apresentem alguma tensão e um certo nível de conflito. O adolescente encontra-se numa “terra de ninguém” na qual tem de (re)organizar a relação com os seus pais, uma vez que já não é uma criança mas ainda não é um adulto, tendo ao mesmo tempo que gerir um trabalho interno que ocorre entre: o desejo de vir a Ser e a frustração de não Ser ainda, tendo que aceitar a dependência a que ainda se encontra sujeito e que se encontra na base de muitos do conflitos parentais.

Os conflitos são parte integrante das relações interpessoais, mas quando se instalam para lá do que é razoável podem levar a ruturas. Assim, surgem os divórcios nas famílias ou mesmo as separações pontuais ou definitivas, nos casais, mas também, entre pais e filhos, que quando ocorrem de uma forma equilibrada favorecem o crescimento, mas quando existem vicissitudes nas separações estas podem ser altamente traumáticas.

O divórcio dos pais tem sobre os adolescentes um forte impacto, levando-os em muitas situações a terem de se dividir entre a mãe e o pai, entre um lugar e outro, sentindo se obrigados a conciliar realidades distintas, por vezes inconciliáveis, que colidem com o momento do crescimento durante o qual existe a necessidade de realizar um conjunto de ligações que possibilitam a construção da sua identidade – quem sou Eu? E dos processos de identificação – como é que Eu me relaciono com o(s) Outro(s).

Quando ocorre um divórcio é muito importante ter em atenção a natureza da relação conjugal que existia antes do divórcio; as características da personalidade de cada um dos pais em conjunto com o momento do desenvolvimento em que o divórcio ocorreu na família, se foi na infância, antes da entrada na adolescência, na entrada da adolescência ou já no final deste momento do desenvolvimento.

Claro que em cada uma destas situações existem enumeras variáveis, no entanto uma grande parte das dificuldades está muito dependente da qualidade da relação que os pais conseguem manter com os filhos depois da separação. Quando existe a possibilidade de entendimento, o adolescente consegue manter a relação, mas quando o conflito predomina verifica-se uma maior dificuldade em realizar o seu processo de desidealização.

 A questão agudiza-se quando os pais voltam a (re)fazer as suas vidas entrando em cena uma “madrasta” ou um “padrasto” com quem o adolescente passa a esgrimir o conflito de gerações, suscitando em algumas situações a necessidade de proteger o pai ou a mãe. Mas, nem sempre a nova família que se constitui permite ao adolescente ter um lugar onde se sinta tranquilo e seguro para poder realizar os processos que se encontram em curso durante este momento do seu crescimento.

Na adolescência ocorre a conquista da autonomia e da individualidade, embora os adolescentes ainda se encontrem profundamente dependentes da família. Quando o divórcio dos pais ocorre durante a adolescência, este pode interferir com a necessária desidealização dos pais, levando a um movimento de procura fora da família de um modelo de identificação. O grupo dos pares surge como um outro lugar mediador da constituição da identidade e dos processos de identificação. Trata-se de um espaço onde os adolescentes podem exteriorizar as suas inquietações e em conjunto podem aprender novas estratégias para lidar com o novo e com o desconhecido.

Independentemente do momento em que ocorreu a separação dos pais constitui-se como fundamental que estes possam preservar uma relação conjunta para com os filhos, mantendo-se unidos e em uníssono, em todas as decisões que dizem respeito à educação dos seus filhos, para que estes se possam sentir seguros e protegidos, o que se constitui da máxima importância em termos da estruturação dos processos psíquicos durante a adolescência e como um bom prognóstico de saúde mental.

O corpo no adolescente apresenta profundas modificações, as quais apresentam importantes repercussões psicológicas. Com o aparecimento dos caracteres secundários o corpo sofre profundas alterações não só para o próprio, mas também para os que o olham, levando em muitas situações a que o corpo seja investido de uma representação simbólica, podendo ser amado ou adiado.

Durante a adolescência, o corpo encontra-se em transformação, mas também é ele que traduz as tensões e os conflitos que ainda não foram elaborados mentalmente, pelo que é normal que as perturbações da primeira infância possam reaparecer durante a adolescência, por exemplo, sob a forma de perturbações do comportamento alimentar, traduzindo fora, uma luta interna, entre a avidez e a escassez, numa luta de forças contraditórias, entre o permanecer criança e o vir a ser um jovem adulto.

As perturbações da imagem do corpo podem surgir ligadas a uma inquietante estranheza, ou seja, trata-se de uma sensação inquietante de não reconhecer o corpo, o que por vezes surge acompanhado de uma forte angústia, podendo surgir comportamentos autodestrutivos, bizarros e incompreensíveis para os familiares, que mais não são do que a exteriorização de uma forte angústia.

Independentemente do tipo de comportamentos que os adolescentes possam escolher para manifestar o seu sentir, o papel da família é o de ajudar a tornar consciente o que podem estar a sentir de uma forma inconsciente, quais podem ser os seus desejos e as suas fantasias, altamente inquietantes e limitativas, inviabilizadoras de um desenvolvimento mais salutar. Nestes contextos, mais importante do que punir é prevenir e esclarecer, dar um sentido ao que os filhos estão a viver porque esse movimento é contentor das ansiedades e libertador das tensões.

As famílias são sistemas complexos, não são perfeitas e como bem sabemos não existem manuais para pais e filhos, pelo que se constitui como fundamental, por um lado, desmistificar e desdramatizar o turbilhão que os adolescentes sentem, e por outro, ajudar as famílias a desenvolver as estratégias mais adequadas para lidar com as problemáticas específicas dos seus filhos.

O processo de tornar-se um adolescente inscreve se por excelência num contexto familiar, no qual é fundamental existir uma boa distância entre os pais e os filhos, permitindo uma fluidez da comunicação e promovendo um bom desenvolvimento da autonomia. Para o melhor desenvolvimento destes processos é essencial que não se anule a diferença de gerações, ou seja, os pais devem manter-se pais, sob perigo de serem confundidos com amigos e gerarem distorções no crescimento dos filhos.

A família apresenta uma grande importância na função de criar pontes, entre a infância e a vida adulta, entre o hoje e o amanhã, entre o saber e o não saber; em tudo o que é inerente ao processo de tornar-se um adolescente, num caminho que vai da infância até à vida adulta, onde o adulto de amanhã irá construir a sua própria família.