PENSAMENTOS

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Ataques de pânico e ansiedade generalizada: uma realidade na nossa sociedade.

O sentimento de estar no limite é uma constante na vida. O coração bate ainda mais forte e o corpo parece não conseguir corresponder ao que necessitamos, este é um sinal de que algo está a correr mal, muitas vezes é o princípio de um ataque de pânico. A vida agitada, o stress, a pressão fase à constante necessidade de dar resposta, a incapacidade de reconhecer os limites, são questões que se levantam na vida pessoal e profissional de todos nós, assim sendo, constitui-se como fundamental pensar com um pouco mais de cuidado no que são os ataques de pânico e na ansiedade generalizada que muitas vezes lhe está associada.

Os ataques de pânico são episódios súbitos que se caracterizam pela presença de sintomas de ansiedade somática ou fisiológica. Apresentam sintomas como palpitações e tonturas, muitas vezes associados a sintomas de ansiedade psíquica, como o medo da morte ou a perda do controlo. Normalmente, os ataques de pânico são muito rápidos, são episódios súbitos que em regra duram sensivelmente 10 minutos ou até menos, que desencadeiam reações físicas severas, podendo ter ou não na sua origem um fator desencadeador.

Muitos de nós já vivenciamos efetivamente um ataque de pânico, ou já tivemos na eminência de ter um, a dificuldade perante este tipo de situações é a de conseguir manter a calma necessária para ter um pensamento claro e objetivo sobre o que se está a passar, de modo a ser possível atuar. Esta é uma tarefa complexa, que muitas vezes surge associada a fortes crises de ansiedade, altamente limitativa, levando à necessidade de intervenção por parte de outrem, familiares ou amigos próximos, podendo chegar mesmo à necessidade de recorrer a uma ajuda especializada.

Perante um ataque de pânico ou uma situação de ansiedade generalizada importa ter em atenção: o que desencadeou a situação; a duração do episódio e a permanência ou não dos sintomas. Estes são os aspetos que permitem distinguir entre um ataque de pânico, normalmente, um episódio intenso e uma crise de ansiedade, que é mais distendida no tempo, podendo por isso ser vista como mais incapacitante.

Qualquer uma destas situações pode ser traumática e por isso merece todo o respeito e atenção, não só por quem a vive, como por parte de todos os que podem estar próximos, pais, familiares, amigos, colegas, chefes. Hoje acontece ao Outro, amanhã pode-me acontecer a mim, por isso é importante não estigmatizar mas alertar e acima de tudo ter uma atitude preventiva, que esclareça e clarifique, para ajudar a diminuir o sofrimento.

A falta de tratamento dos ataques de pânico pode afetar gravemente todos os aspetos da vida de uma pessoa, seja a dinâmica relacional, familiar, ou mesmo o rendimento profissional. Podendo inclusivamente conduzir a um afastamento da vida social, sendo facilmente confundidos com os sintomas de depressão. Em situações mais graves podem levar ao abuso de substâncias, geradoras de fortes desequilíbrios emocionais.

Dada a gravidade que todos estes sintomas apresentam é muito importante poder distingui-los corretamente, para se proceder realizar uma ação preventiva mais eficaz. A ansiedade é antes de mais uma reação normal do ser humano face a situações que podem suscitar medo ou expectativa. O principal objetivo da ansiedade é o de promover a adaptação do individuo à situação. Mas, quando este sentimento predomina por longos períodos de tempo e interfere nas atividades do dia-a-dia da pessoa, a ansiedade deixa de ser uma resposta normal e adequada, para passar a ser uma fonte de preocupação e de inquietação.

Podemos dizer que a ansiedade é uma resposta emocional complexa, podendo ser adaptada quando existe uma perceção de ameaça ao organismo, a qual desencadeia uma ativação biológica, como resposta à perceção que foi sentida. Neste contexto existem 3 eixos sobre os quais importa refletir: o eixo fisiológico – que se caracteriza pela presença de sintomas somáticos ou físicos de ansiedade: aperto no peito, dificuldade em respirar, boca seca suores, tremores, palpitações; o eixo cognitivo – que consiste num conjunto de pensamentos e ideias, crenças ou imagens que acompanham os momentos de ansiedade e que se encontram relacionados com os possíveis perigos; e o eixo comportamental – que diz respeito às reações e às cognições ansiosas, podendo manifestar-se por exemplo, através do comportamento de evitamento. Mas, a ansiedade também pode surgir como consequência de uma perturbação clínica e nesses casos deverá ser despistada pelos técnicos competentes: Médicos, Psiquiatras e Psicólogos.

As fobias são um dos comportamentos de evitamento que surgem com muita frequência associados à ansiedade, encontrando-se relacionados com a angústia que lhe está subjacente. Os medos de tipo fóbico desenvolvem-se na maior parte das vezes a partir dos estados de ansiedade críticos, uma vez que as fobias veiculam intrapsiquicamente sentimentos muito fortes, funcionando como uma condensação de angústias, permitindo um certo tipo de controlo sobre as mesmas, contribuindo deste modo para estabilizar a fantasia.

As fobias podem ser de vários tipos, sendo as mais comuns as que se encontram relacionadas com estímulos externos, algumas das mais conhecidas são as fobias aos animais, a agorafobia (medo de estar em locais abertos), a fobia social ou outras fobias mais específicas. Assim como, as que são provenientes de estímulos internos: a nosofobia, que se verifica quando se tem medo de ter uma doença específica e as fobias obsessivas, nas quais existe um medo que domina o pensamento.

Para o tratamento dos ataques de pânico e para a ansiedade generalizada a terapêutica farmacológica é uma das mais utilizadas, contudo o tratamento mais eficaz é a Psicoterapia, não só porque em algumas situações a medicação não surte efeito como provoca efeitos secundários que são altamente nefastos. A medicação tem como objetivo a eliminação dos sintomas, possibilitando que mais rapidamente a pessoa retome as suas atividades diárias nas várias dimensões da sua vida: pessoal, social e profissional.

A realização de uma Psicoterapia permite uma descoberta das causas inerentes à situação e uma resolução da mesma a médio e a longo prazo. O principal objetivo terapêutico é a (re)estruturação dos mecanismos de defesa, permitindo que a pessoa tome consciência dos seus conflitos internos, da forma como estes se encontram presentes na sua vida pessoal, social e profissional, permitindo-lhe desenvolver novas estratégias para melhor lidar com este tipo de situações. A capacidade de antecipar os conflitos internos possibilita a construção de estratégias mais adequadas, que permitem o melhor equilíbrio emocional.

Quando o (re)equilíbrio psíquico é conseguido, através da (re)construção do sistema defensivo, isso não significa que a pessoa não volta a poder sofrer um ataque de pânico, ou a ter uma crise de ansiedade, o que acontece é que mesmo que um novo episódio volte a ocorrer, a pessoa apresenta uma maior capacidade de lidar com a situação, ou seja, passa a ser capaz de identificar as causas e aciona um conjunto de mecanismos que lhe permite lidar com a situação de uma forma mais equilibrada e menos paralisante.

A raiz de muitos dos medos que se encontram por trás dos ataques de pânico e das crises de ansiedade tem muitas vezes, origem muitos anos antes, ficando como que enquistados, podendo não emergir durante muitos anos ou serem desencadeados de repente, gerando uma situação traumática. Normalmente, esta situação do presente (re)ativou o sentimento que havia ficado enquistado no passado, que em muitas situações encontra-se associado a uma falha na construção da identidade durante a adolescência ou no inicio da vida adulta e que no presente dá origem a uma situação traumática que terá de ser resolvida de modo a ser possível reencontrar o equilíbrio emocional.

A boa construção identitária é fundamental para o melhor equilíbrio psíquico de todos nós, mas nem sempre este processo decorre da melhor forma, podendo existir traumas que permanecem e que em determinados momentos de mudança do ciclo de vida são despoletados gerando ataques de pânico e/ou crises de ansiedade.

A sociedade nos últimos anos sofreu inúmeras transformações, no passado dominavam as lógicas restritivas, enquanto no presente domina a incerteza e a insegurança, o que levou a que se perdessem alguns dos referenciais que serviam de estrutura de referência e de apoio. As famílias hoje são consideravelmente mais pequenas, perdeu-se o conceito de família alargada que servia não só como uma rede de apoio, mas também, como um lugar para explorar e espelhar formas de proceder, funcionando como um “calmante” natural para a ansiedade normal, sentida nos mais diversos contextos da vida. O importante a reter é que estas problemáticas têm um tratamento e uma cura, pelo que devem ser tratadas com o devido respeito e atenção, por parte da sociedade de forma a promover a prevenção e a atuar para minimizar o sofrimento.

Era uma vez… Assim começam muitas das histórias de que temos memória da nossa infância, elas passam de geração em geração, de pais para filhos, uma transmissão cheia de afeto, reveladora do olhar sobre o mundo, de uns e de outros, permitindo realizar novas descobertas e aprendizagens de uma forma criativa. A identidade de cada um de nós foi-se construindo com base na memória dessas histórias, que foram contadas uma e outra vez, em tempos que nos parecem longínquos mas que fazem parte do património afetivo que cada um de nós transporta pela vida fora.

Desde sempre que o homem foi criando narrativas para o ajudar a elaborar as questões que o preocupavam, muitas dessas histórias eram inventadas, algumas ainda hoje fazem parte da sabedoria popular, servindo de base à orientação da vida das pessoas. De um modo geral, podemos dizer que a vida de todos nós é feita de narrativas, nascemos e crescemos inseridos num contexto onde a transmissão do conhecimento é feito através de histórias. Nestas, importa distinguir dois aspetos: a história em si mesma e aquilo que dela fica retido na memória de cada um, que por sua vez irá ser posteriormente transmitida no património cultural pertencente a cada família.

Durante a infância é comum ouvirmos as crianças pedirem aos pais “conta-me uma história”, não se cansando de ouvir contar, uma e outra vez, a mesma história. Neste processo aparentemente repetitivo, as crianças encontram-se a realizar um trabalho de reconhecimento das experiências pessoais, fazendo uma identificação com as personagens, com as quais aprendem de uma forma criativa a solucionar os mais variados tipos de problemas.

Neste sentido, as narrativas durante a infância revestem-se de uma extrema importância, na medida em que possibilitam, não só tomar consciência de um conjunto de sentimentos e de emoções, como aprender com a experiência dos personagens, para a resolução de situações reais e/ou de conflitos emocionais. É vulgar ouvir uma criança mencionar que “fez como o …”, fazendo referência a uma personagem de uma história, conciliando internamente a sua forma de fazer, com a identificação que fez ao personagem, tecendo uma teia de relações afetivas que entretece a fantasia e a realidade.

As histórias infantis são um condensado de informação que desempenha um papel muito importante na transmissão do conhecimento. Mas, os contos infantis fazem parte da relação entre a criança e aqueles que lhe prestam os cuidados necessários, os pais ou as figuras cuidadoras mais próximas, possibilitando que se constituam as primeiras experiências subjetivas, as quais vão enriquecer o seu mundo interno. 

Mais do que a história em si que é contada, o importante é a forma como esta é contada, ou seja, o modo como vai ser transmitida pelos pais aos filhos, que por sua vez, um dia, irão ser eles os novos contadores, gerando conhecimento e possibilitando a aquisição de novas aprendizagens. Nesta transmissão, toda a envolvência que é criada à volta da história, que vai da entoação da voz, ao suspense que é criado antes do seu desfecho, revela-se como uma verdadeira magia, que solidifica as relações afetivas e está na base da construção da identidade das crianças.

Esta magia que vem da infância deverá ocorrer de uma forma similar com a entrada para a escola, onde o(s) professor(es) são também eles por excelência contadores de histórias, tendo estas o objetivo de permitir aceder à aprendizagem, num crescendo que estimule a curiosidade e o desejo de saber. A criança é facilmente cativada pelo adulto que partilha o seu saber, apenas pelo prazer que tem em contar, em transmitir o seu conhecimento, num clima de mútuo enriquecimento.

Os conteúdos das histórias revestem-se de uma particular importância, na medida em que levam muito a sério as angústias e os dilemas existenciais da infância, como a necessidade de nos sentirmos amados, o medo de que os outros pensem que não pensamos da mesma forma que eles, o amor pela vida, o medo da morte… Todos estes temas revestem-se de uma importância em termos psicológicos para as crianças de todas as idades, tanto para os rapazes como para as raparigas, independentemente da idade à qual a história se destina ou do sexo do herói que a protagoniza.

Os clássicos da literatura infantil são uma referência para todos nós, eles ensinam-nos a pensar sobre algumas das questões presentes no crescimento. Por exemplo, “Os três porquinhos” traduzem a evolução natural que deve estar presente ao longo do crescimento, ou seja, a necessidade de deixar de brincar e de ser progressivamente mais responsável, construindo uma casinha onde reine a segurança e a proteção. A capacidade de ter sucesso é uma constante no “Gato das Botas”. Na “Gata Borralheira” está em jogo a rivalidade e a usurpação do lugar da personagem princial; já a “Branca de Neve”, traduz os poderes maléficos da bruxa malvada e a salvação feita primeiro pelos sete anões e depois pelo príncipe. A “Rapunzel” é um bom retrato dos problemas típicos da adolescência, uma jovem púbere de 12 anos é fechada numa torre, ilustrando a dificuldade de acesso à independência e à autonomia.

A possibilidade das crianças realizarem um reconhecimento dos conteúdos presentes nos contos infantis permite a construção dos mecanismos necessários para enfrentar e ultrapassar as tensões inerentes a cada momento evolutivo em que a criança se encontra. Neste sentido, apresentam-se como um precioso auxiliar para os pais, mas também, para os professores, assim como, para todos os que direta ou indiretamente, se relacionam com a criança.

Todas as histórias apresentam uma narrativa consciente – o conteúdo, que ao ser contado ganha toda uma dinâmica afetiva, que por sua vez, irá ter um determinado impacto no ouvinte, que com base no que vai sentindo irá desenvolver uma fantasia. Naturalmente, a criança ao ouvir uma história precisa de viver todos os sentimentos que estão a ser narrados na presença do adulto, porque quando uma criança lê um livro sozinha ela fica exposta à própria história, tendo que lidar com as suas fantasias e com os movimentos inconscientes que esta lhe suscitou, podendo mesmo em algumas situações, realizar interpretações distorcidas que advém dos conflitos que no momento podem estar ativos no seu desenvolvimento psicológico.

Quem conta uma história acrescenta-lhe um pouco de si, do seu sentir, dá-lhe um colorido afetivo que fica no imaginário de quem a ouve e guarda na memória, para mais tarde, a poder voltar a contar, numa circularidade que irá dá lugar à transmissão do conhecimento enriquecido e enternecido pela magia que os contos infantis tem na e para a infância.